Sinto-me como fada que perdeu o poder,
Esse meu novo poder de escrever!…
Mas quando o exerço,
Nem me lembro quem sou
Ou quem não sou!…
Ser fada às vezes enfada.
Desço ao nível de gente,
Que é sempre mais exigente,
E então vou criar filhos
Arrumar gavetas
Lavar pratos
Cozinhar
Costurar
Dar aula
Emprestar coisas…
Ou então tocar piano
Em semitom e semidom…
Aprendiz de fada…
Dessas que ainda vacilam,
Tropeçam.
E,inseguras,
Seguram-se na certidão-certeza
De não-servidão.
E quando se aprumam e se exprimem,
Têm a estrangeira expressão
De uma simples passageira
Que é deste mundo e não é,
E se faz entender,
Porque língua de fada é antes empática
E só depois telepática!…
Primeiro, é lugar do outro,
Pra depois ligar pra o outro!…
Enquanto não vem a que reduz,
Faz-se a comunicação como se fez a luz!
Canais abertos
Queluz
Vaduz
Corridas de avestruz…
Tudo num passe de mágica,
Hemorrágica sangria nos deuses,
Que precisam doar sangue,
Porque já começaram,
E não podem parar!
Nós é que ficamos anêmicas
Por não os procurar!…
Ah! Visão de gente abafada,
Princípio de fada inacabada…
Ontem, um morcego rodou muito minha janela!…
Será mau agouro?…
Belo Horizonte, 1980.
Euna Britto de Oliveira
