Granito

Com a coragem de uma pedra,
queria ostentar quatro mil anos!
E ter sido egípcia,
grega,
romana…
Camareira de Cleópatra,
pra dissuadi-la de morrer daquele jeito…
Cozinheira de ninguém,
pois não gosto de cozinhar.
Amiga do peito de César!…
Costureira de Paulo,
pra fazer a roupa que ele usava,
no dia da estrada de Damasco…

Mas tenho apenas quarenta,
a melhor idade para quem inventa
desenhar com letras
o que os outros foram,
ânforas desterradas
da cidade que o vulcão encobriu
de pedra quente derretida,
essa solda apropriada
para trancar no tempo
a glória que o espaço estancou!

Mais que Jerusalém,
mais que Matusalém,
recuar meu nascimento
e não enrugar nunca!

Mas não sou pedra,
sou gente,
e não permanecerei
pra semente…
Certamente!
Até quarenta,
já acham que é muito tempo,
pra gente!…
Desaforo que as pedras não enfrentam!…
São duras.


Escrito em BH – 1979.

Euna Britto de Oliveira