Vida que flui…

Corre, corrente quente,
Por sobre a areia ardente
E leva-me com o grão latente…

Corre, corrente fria,
Debaixo da ponte vazia
Onde ninguém observa…
Uma noite longa te espia!
Um sulco aberto te convida e guia!…

Corre, corrente,
Até desaguar no mar!…
E não te preocupes mais comigo,
Onde me depositar.
Na crista de alguma
Cristalina onda,
No seu embalo de artista,
Junto com a concha e o robalo,
Vou ganhar o meu lugar!
Tenho medo de touceiras, água suja e pantanal.

Corre, corrente amiga,
Junto com a folha e a formiga!…
Corre, corrente!…
E na tua
Carreira
Correria
Corredeira…
Corre e me leva em teu meio,
Junto com a isca e a traíra…
Não me deixes na beira,
Na margem,
Marginalizada,
Marginal!
Só contigo eu sou ligeira…
Toda inteira
Brasileira!

Bloqueada,
Cara parada,
A mulher embaraçada tem a vista embaçada
E me faz medo.
Medo de ela ser eu mesma!
Ó Imanência Sagrada,
Livrai-me de ser
Um ser
Estaganado e
Fechado!
Ajudai-me a fluir…
Ajudai-me a ser!…


BH 08/11/1980

Euna Britto de Oliveira