Acidental

Na rua, dois passarinhos balançam no fio do telefone.
As antenas de televisão cheias de andorinhas
Parecem cartões postais
Prontos para serem enviados…
Até uma mosca balança o que para ela é uma árvore – meu manjericão!
Com que sonhava Nossa Senhora?…
A face de Cristo é inequívoca e inesquecível.
O coreaninho, de mãe brasileira, olhava as fotos
E dizia uma palavra que para mim
Soava como ACIDENTAL.
Como alguém da foto poderia ser acidental?
Será que mudava demais, de uma foto para outra?…
Não. A palavra era OCIDENTAL.

Gandhi é um festival de não-violência que a Índia preparou
E deixou evolar, como incenso de suave fragrância…

Os caminhos que Deus desenhou para mim
Às vezes parecem pinturas que só se revelam quando molhadas…
Só se pingar lágrima por cima é que eles aparecem!
Não sei o que devo fazer diante de Deus, tão sutil!…
Queria logo saber o que a vida será, mas não sei.
Ninguém sabe.
Bem feito que Deus põe a ridículo os adivinhos!…

Vai indo, vai indo…
Mudam-se as circunstâncias.
O inferno tem cheiro de enxofre
E também de maconha,
De pinga!…
É lá mesmo que todo mundo xinga.
O céu… mostra-se sem véu:
A criança brinca de casinha
Um casal dança a dança dos equilibrados
Nasce uma flor no deserto
Os que estão longe mandam beijos
E os beijos chegam!…

O bonito do frio é a neve…
Fora disso,
Que para mim seja breve!
A conta de valorizar o sol!

As formigas passeiam tranqüilas, a nosso alcance,
E os homens ferozes, em vez de repulsa,
Recebem vozes que os abrandam com o perdão.
Vislumbro o lobo que pasta tranqüilo junto ao cordeiro.
Claro que a gente sabe de tudo o que foi, é, e será!
Só que não lembra.
Eu tinha só três anos,
Eu não tinha ano nenhum,
Meu pai combinou de me ajudar.
Até a última hora,
Até a última conversa que tivemos,
Ele me garantiu que Deus existe!

Euna Britto de Oliveira