A nave bela e calma…

A nave bela e calma inspirou-me o atrelar-me a uma estrela.
Puxa-me a ponta da lua
Em sua manhã mais alva
E me salva!

À porta da rua,
Há um trem sem fim…
Transporta minério e mistério
Mineiros a postos, em fila!!!…
Seus nomes:
Joaquim, Serafim, Silvano,
Fulano, Sicrano, Beltrano…

Ai de mim!…
O que quereis que eu faça
Ou desfaça?
O que quereis que eu refaça?
O nó da gravata
O nó da garganta
O nó na ponta do lenço
Onde se amarraram uma moeda antiga, de prata
Uma pedra preciosa, rosada
Uma aliança descasada
Uma coisa descascada
O nó da vida…

O que quereis que eu faça ou desfaça?
O que quereis que eu refaça?…

O que quereis que eu jogue nas águas do mar?
Uma mensagem na garrafa
Um toco de cigarro infame
De fumo entremeado de erva
E semente de maconha
Flores de flamboyant para
Yemanjá vir buscar?…

O que quereis que eu retire do mar?
A causa de todas as coisas
A ostra, o marisco em forma de estrela
A pérola negra
O coral
A ponta de vil punhal?

No mar tem de tudo!
Navios, tesouros
Boas-sortes, agouros
Avião voando baixo
Submarino profundo
Areias, sereias, lua-cheia boiando no horizonte…

Ainda que eu tenha tempo e obediência,
Ah! Não me peçais nada da selva!
Nem a orquídea, nem a pedra
Nem o ouro garimpado
Nem a foto sobre a larga folha da vitória-régia…
A selva tem tocaias, armadilhas
Cobras enormes, camaleônicas, cor das coisas inofensivas…
Da selva, eu tenho medo.
Muito!
Da selva,
Quero distância…

Fornalha na terra
Fumega…
Chega uma nave bela e calma
E dá agasalho a minh´alma…
Em vez de trafegar,
Navego…
Sossego.

Euna Britto de Oliveira