Preciso da esperança de, tendo nascido velha,
Transformar-me numa criança.
Ah, mar da China,
Ah, menina, quem me pega o boto cor-de-rosa
Para com ele ter uma prosa?
Ele na água e eu no barranco,
Ele de rosa e eu de branco…
Quem me leva, em barco seguro,
Para ver a dança das baleias?
Não me iludo com sereias…
O tocador de flauta poderia melhorar o mundo agora,
Neste exato momento,
Tocando uma suave música que me fizesse dormir,
Aquela mesma música que eu escutava quando ninguém tocava…
A cozinha grande, o fogão de lenha,
E a casa era a da minha avó.
Juro que eu escutava uma música, à noite, às vezes, antes de dormir.
Seriam sons reorganizados de algum carro de boi?…
Ou era Beethoven mesmo, para justificar seu retrato na parede?…
Era uma música quase clássica, longe e fina
Para os meus ouvidos de menina…
Uma mordomia era tia Nice me beliscar de leve o corpo todo, aí, eu dormia…
Agora, eu mesma belisco o meu pensamento
E de vez em quando sai poesia…
Penso em tanta gente!
Gente é uma coisa engraçada:
Se não está perto, vira lembrança.
Aliás, tudo longe é só lembrança…
Até o sol vira lembrança, mas por pouco tempo.
Até a noite vira lembrança, mas por pouco tempo.
Minha mãe?
Escapuliu, virou lembrança, alçou voo,
Furou o mistério e nos deixou na grande e humana peregrinação,
Contando os anos e a abstenção…
Tem jeito não!…
Euna Britto de Oliveira
BH, 26/06/1992
