Dois bois castanhos e mansos
Puxam um carro supostamente carregado de cana,
Mas, na verdade, é saudade que transportam,
São saudades superpostas…
Verde e súplice, um louva-a-deus equilibra-se
Na lembrança de uma folha de capim,
Numa curva do caminho…
Viajar em carro de boi é lento e lúdico!…
As rodas vão moendo as distâncias
E produzindo um som que não chega a ser música,
Mas agrada.
O arranjo do instrumento improvisado pelas rodas
É mais que medieval,
Ancestral…
Conforme a estrada, pequenos solavancos
Embalam eventuais passageiros.
Submissos, debaixo da canga,
Seguem os bois pela paisagem…
Lambem o sal do cocho,
Sacodem a cauda e as orelhas, para afugentar as moscas…
É dia de vacinação,
Bate a cancela,
Fecha-se o curral.
Fecha-se um ciclo em que se fazia tudo igual!…
Agora é hoje,
Ontem foi seu rival,
E o futuro é pontual!…
Comecei em cavalo manso,
Andei em carro de boi, para, enfim,
Ganhar estradas
Em rodas mais turbinadas…
Ô paciência de Deus!
Quantas camadas de magma para fazer uma montanha?!…
A montanha que eu, eterna escolar,
Bem devagar, devo aprender a escalar!…
