Desapego…

— “O desapego é a coisa melhor do mundo, minha filha!”
Diz-me, clarissa e franciscana, a Irmã Virgília.
— Eu sei disto, Irmã, mas muitas vezes me esqueço…

Aqueço em banho-maria a música do piano abandonado…
Minha música requintada é requentada.
Apraz-me ouvir a guitarra espanhola
E os ritmos ciganos…

Não devo perder o prazo!
Dirijo-me à igreja que erigiram sobre um morro,
Em Belo Horizonte,
A de Santa Ermelinda,
E lá também eu rezo…

A letra C sobre o certo,
Sobre os erros, um traço,
Risco-os do mapa.
Faço uma cancela com um X,
Para que os erros não passem!…

Para viver, não preciso de muito.
As sobras escravizam, responsabilizam!
As faltas penalizam, paralisam!
Apenas o necessário
E o dificílimo ponto de equilíbrio
Em que reside o ideal!

A arte de escolher inclui a arte de encolher.
Retraio-me,
Subtraio-me,
Aprendo com os contorcionistas,
Reconcilio-me com os ascetas,
Informo-me com os profetas,
Confesso a fé que professo…

Vidrados, vitrificados,
Os olhos maduros da morte,
Os olhos mais duros da sorte!…



Euna Britto de Oliveira