Horizontes

Deus quer ver
Quem é capaz de louvá-lo até no fundo do poço!…
Posso dizer “mea culpa”,
Mas “sursum corde” é difícil,
Meu coração vai a pé
E quer mais Fé!

Segue comigo a multidão não recenseada.
Pó e pá.
Dói no fundo do mar,
No interior da concha,
A ostra invisível,
Porque sabe que o mergulhador
Vai lhe arrancar a pérola e a vida!

Quisera ter asas para voar
E nada para contar, para enumerar.
Os números determinam mais nossa vida do que as próprias palavras.
São eles próprios as mesmas noções
Em todas as nações, em diferentes palavras…
É de número nossa idade, nosso poder aquisitivo,
Nosso tempo, nosso espaço,
As distâncias das coisas boas ou ruins
E toda e qualquer duração…

Passo um pano úmido sobre minha fronte
E não consigo limpar certas lembranças,
Certos acontecimentos.
Parece que comi das dores do mundo,
Minha cabeça pesa,
Minha cabeça pensa,
Tensa e mal dormida.

— “As flores não existem mais”, diz Dulce,
Ao se lembrar dos copos-de-leite que não vê, faz tempo!
Eles cresciam em lugares úmidos e enfeitavam as jarras…

Hoje, chorei copiosamente…
Novos horizontes aparecem em olhares úmidos.
Humildemente obedeço à minha certidão de idade.
Passo
Fico
Pacifico
Sou
Estou…
O que restar, restou!


“Sursum corde” – Expressão latina que significa “Corações ao alto”

Euna Britto de Oliveira