Quaresma…
Uma resma de pecados para expiar…
E minha falta de sacrifício!
Com essa de
—“Eu mereço!…”
vou furando o cerco,
a cerca que deveria respeitar,
para não comprar tanto,
não telefonar tanto,
não revelar tudo que se passou comigo
e só Deus deveria saber!…
Isso também seria jejum!
Horas que expiram
e não explicam,
e não respondem meus porquês…
Insatisfeita, busco consolações.

A boca banguela da vida é atrevida!
Fala, fala, grita!
Bate-boca na beira da cerca de D.Isabel,
na sala de D.Maria,
no pátio da minha casa…
Bebe pinga e cospe fel…
Esbraveja,
derrama-se…

Já conheci outra vida,
de honorários perfeitos,
bem-paga,
com luz que não se apaga!
Já conheci a vida de sorriso franco,
de dentes alinhados e brancos,
a vida de estudante,
a vida sorridente,
a vida sem dor de dente,
a vida galopante em cavalo campolina,
e manga-larga marchador,
em seus pastos verdejantes…

Futuramente,
farei furos na parede!…
Não para dependurar quadros.
Farei furos para espiar a enxerida,
para vazar desta vida…

Não tenho pressa.
Tenho certeza.

Com quaresmeiras,
enfeito o olhar sobre o mundo que me rodeia…


Belo Horizonte, 13/03/04.

Euna Britto de Oliveira