Folhas de papel espreitam-me…
Estreitas pautas esperam cócegas
Do bico de alguma caneta!
Se posso escrever, escrevo.
Se não posso, perco as falas silenciosas
Que me chegam e, ignoradas,
Vão-se embora e não voltam mais.
Entre o simples o complexo,
O amplexo para o espelho convexo!
Nele, esteve refletido o meu filho,
Que o escolheu, apropriado para garagem,
A fim de enfeitar seu apartamento.
Deixou o espelho para trás…
Tenta espalhar-se numa Paris comprimida,
Onde meio mundo quer morar,
Mas não há lugar.
Estudantes escondem-se por lá,
A fim de frequentarem a Sorbonne,
Desejosos de serem bons!…
Um bom negócio, em cidade grande,
É ser dono de estacionamento,
Aqui, entre nós!
Não em Paris, onde o transporte coletivo,
De tão resolvido,
Dispensa comentários
E também dispensa carros…
Encontro-me com o desencontro.
Não me desencanta,
Desalenta-me.
Tempo de índio, conta-se em luas:
Passaram-se tantas luas…
Regrido a esse tipo de contagem do tempo.
Deconsertam-me os numerais arábicos e romanos.
Quero contar com os índios
E viver sob luas
Passadas
Presentes e
Futuras…
Estarei iluminada por luares,
Localizável por radares!…
Reduzo-me à minha expressão mais simples – a de gente.
Se colocarem uma cerca diante de mim, eu não passo.
Mas atravesso rios e mares,
Porque a água é fluida e tenho bom trânsito na água…
Sou equipada para ser vivente.
Poderia ser onça, leoa, girafa…
Mas sou gente.
Euna Britto de Oliveira
